sexta-feira, 10 de julho de 2020

Vamo arrumar um guri pra ele?

Cê acha que ele já ficou com alguém?
Ah, o Lucas não ficou com ninguém. 
Sério? perguntou Júlia, fingindo surpresa. Tudo em Lucas gritava virgem. Já havia percebido o quanto ele parecia desconfortável perto de outros meninos, mantendo distância e só fazendo contato visual de vez em quando. 
Vamo arrumar um guri pra ele? 
Como assim? 
A gente fala que o Ryan quer ficar com ele só pra gente ver a cara dele, Júlia sugeriu caindo na risada, já imagina Lucas vermelho em pensar que alguém tinha interesse nele. 
Luana achou a ideia divertida e concordou.
Mas depois a gente conta pra ele, né?

Claro, respondeu, o sorriso cínico e olhar de serpente no rosto.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A Peste

Wellington já imaginava o que faria com o dinheiro da herança.
Quando a mãe reclamou de dores no corpo e falta de apetite, já sabia o que era. Foi levada à uma UPA, fez o teste e saiu positivo. Quando chegou à tenda instalada diante da UPA, se impressionou com o número de pessoas que esperavam por atendimento. Rostos conhecidos. 
Ia ser difícil escapar. Em cidade pequena ainda. 
Lembrou das irmãs que moram longe, não poderiam vir para o enterro caso a mãe morresse.
A mulher que antes corria atrás dele de chinelo na mão agora estava deitada na cama, frágil. A pele enrugada, feita em cubinhos. Manchas escuras por todo o braço. A irmã disse que quando a levou ao médico, perguntou a ele o que eram aquelas manchas. “São os janeiros, minha senhora”, ele disse. 
Vaidosa, não aceitava a velhice. O esquecimento só piorou a situação. Se sentia jovem em corpo velho. 

Era engraçado pensar no tanto de amor que ele sentia porque alguém que tanto o fez sofrer. Ainda assim não se comparava com o pai. Socos na cara, tapas na orelha, pé no pescoço. Era um demônio. Se estivesse vivo e doente, deixaria que os outros irmãos cuidassem dele. 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Lei Carolina Dieckmann

E agora, o que eu faço? Chamo a polícia? 
Chamar polícia, tá doido? Desde que quando polícia resolve essas coisa? 
Tem lei, eu li de um cara que foi preso depois de fazer foto da ex. 
Sério? 
Aham. 
Mas eu não quero ir em delegacia não, acho que esse tipo de boletim dá pra fazer pela internet mesmo, vamo ver aqui. 
João abriu o laptop e buscou por boletim de ocorrência no navegador. Lucas puxou uma cadeira e sentou ao lado do amigo, de vez em quando mirava seu rosto, buscando alguma emoção. Era a mesma expressão de quando ele fazia alguma pesquisa pra faculdade, não tinha nada de especial ali. 
Eu acho incrível como você se mantém calmo numa situação dessa…

Quem tem que ficar nervoso é ele. Vai levar um susto, cê vai ver.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Ler em Inglês

Por um bom tempo eu já estudava inglês, sozinho e desesperadamente. Lia muita coisa na internet, geralmente sobre assuntos que realmente me interessavam. Copiava parágrafos inteiros em papéis avulsos ou cadernos, criando embaixo de cada parágrafo uma espécie de glossário com as palavras então desconhecidas para mim. Isso, o Duolingo e o glorioso Lang-8 me ajudaram muito a criar uma base pra que eu então pudesse me atrever a ler em inglês.

Lá em 2014, quando eu comecei a ler em inglês, eu me lembro que eu passava horas na internet procurando dicas de como começar e por onde começar. Lembro que me deparei com gente bastante pessimista, que usava da própria experiência para dizer que ler em inglês, ao menos pra quem não tem esse idioma como língua materna, é impossível. Pouco tempo depois eu provei o contrário.

Baixei "The Perks of Being a Wallflower" e coloquei no meu tablet. Sempre com um dicionário por perto, eu demorei alguns dias para terminar o livro. Confesso que tive sorte. Aquele livro era o que eu precisava: escrita simples, no meu nível, temas com os quais eu me identificava.

Minha  dica é essa: procure algo simples, de preferência leia a tradução em português antes, ou pelo menos dê uma olhada. A partir daí você pode saber se é um texto fácil, com palavras mais comuns, algo pouco rebuscado. Também é importante que seja sobre um assunto com o qual você esteja familiarizado.

Vai devagar também, nada de tentar ler o negócio todo em um dia. É engraçado pensar que em 2014 eu tava lendo YA e hoje em dia já consigo ler clássicos com bastante facilidade. O segredo é manter o aprendizado constante.

domingo, 11 de outubro de 2015

Resenha: A Culpa é das Estrelas (John Green)


Por anos eu relutei em ler "A Culpa É das Estrelas". Primeiro porque era modinha e segundo porque, num seminário de escola no meu primeiro ano do ensino médio, uma das integrantes do grupo que falou sobre o livro do Jhon  Green, uma colega com quem eu conversava bastante e admirava pela inteligência e autenticidade, chamou Hazel de "extremamente egoísta".
"De egoísta só basta eu", pensei na hora.
Há muito tempo, logo depois de comprar meu Kindle lá em meados de 2014 (7x1, protestos), eu enchi o bicho de livro, "The Fault in Our Stars" incluso. Não muito tempo depois, o filme foi lançado eu ouvi as pessoas mais improváveis rasgar elogios pela história e confessarem que tinha chorado. "Esse negócio deve ser bom, hein", pensei. Não li na época do lançamento do filme, mas há algumas semanas decidi entrar no mundo cancerígeno romântico de John Green.
Hazel Grace foi diagnosticada com câncer de tireóide aos 12 anos, sendo depois também diagnosticada com um sério problema nos pulmões que vez ou outra a ataca com sufocantes crises de falta de ar. Daí pra frente a vida de Hazel nunca mais foi a mesma.
Escrito em primeira pessoa, o livro mostra uma grande disparidade entre os pensamentos de Hazel e suas ações.  O quase-ódio que a personagen sente pelos pais superprotores, preocupados com sua doença, sai da boca da personagem raras vezes durante todo o livro, os desabafos de Hazel sempre acompanhados de uma culpa esmagadora.
Hazel Grace e Augustus Waters foram feitos um para o outro. Ela, culta, inteligente, engraçada. Ele, capaz de tudo pela pessoa amada, viagem à Amsterdã inclusa no pacote. Os dois se conhecem num grupo para pessoas com câncer e lá mesmo começa a paquera e uma das histórias de amor mais fofas/estranhas/originais que eu já li.  Espero que esse parágrafo não seja alguma espécie de spoiler.
Mas nem tudo são flores. Hazel Grace é chata pra cacete, sim. Mal agradecida com os pais que tanto a ajudam, principalmente com a mãe, o que vai te dar vontade de dar uns tapas na cara da moça. Além disso, o romance entre os dois personagens principais, mesmo cheio de dificuldades, parece irreal, até mesmo idealizado.
Mas agora voltando aos pontos fortes do livro, John Green é um mestre no que diz respeito a passar pro papel as felicidades e angústias dos jovens do século XXI. Trazendo um pouco para a nossa linguagem atual, eu diria que o cara manja. É o primeiro livro do John Green que leio, mas pelo que já li sobre o autor sei que seus personagens são, em geral, assim como Hazel, cultos e introvertidos, gente que liga bastante pra concordância verbal.
"A Culpa é das Estrelas" é não só o resultado de uma pesquisa séria feito pelo autor, que visitou hospitais onde crianças se tratavam do câncer, colhendo informações que posteriormente foram usadas nesse sucesso, como também um romance que oferece uma visão sobre o câncer em geral e aqueles que sofrem da doença.